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A descoberta da célula: quando o invisível passou a explicar a vida

Como uma observação microscópica no século XVII transformou a compreensão da vida, da saúde e da própria biologia

 

A ideia de que toda forma de vida é composta por unidades microscópicas chamadas células parece hoje quase intuitiva. No entanto, essa noção — central para a biologia, a medicina e as ciências da vida — é relativamente recente na história do conhecimento humano. Ela começa a tomar forma no século XVII, em um contexto de profundas transformações científicas, marcado pelo surgimento de novos instrumentos, pela valorização da observação empírica e pelo esforço de sistematizar a natureza.

 

O microscópio e o nascimento de um novo olhar

Antes da descoberta da célula, o maior obstáculo para compreender a estrutura íntima dos seres vivos era simples: ela não podia ser vista. A invenção do microscópio, atribuída por muitos historiadores ao holandês Zacharias Jansen e a seu pai, Hans Jansen, por volta de 1590, abriu uma janela inédita para o mundo microscópico. Inicialmente, porém, o instrumento tinha pouca relevância científica. As primeiras lentes eram rudimentares, causavam distorções ópticas e eram usadas mais como curiosidade ou entretenimento do que como ferramenta de investigação.

 

“A Teoria Celular unificou a biologia ao revelar que toda forma de vida, da mais simples à mais complexa, compartilha a mesma unidade fundamental.”

 

Esse cenário começou a mudar ao longo do século XVII, quando o microscópio passou a ser gradualmente aprimorado. Um dos nomes fundamentais dessa transição foi Antoni van Leeuwenhoek (1632–1723). Com microscópios simples, porém extremamente bem polidos, ele foi o primeiro a observar e descrever microrganismos, como bactérias e protozoários, além de espermatozoides e glóbulos sanguíneos. Suas observações revelaram que o mundo vivo era muito mais diverso e complexo do que se imaginava.

 

Robert Hooke e a primeira “célula”

Apesar das observações pioneiras de Leeuwenhoek, foi o inglês Robert Hooke (1635–1703) quem deu nome à unidade fundamental da vida. Em 1665, ao examinar cortes finos de cortiça — tecido vegetal usado, entre outras coisas, na fabricação de rolhas — Hooke percebeu a presença de pequenas estruturas repetidas, semelhantes a compartimentos ou câmaras. Ele as chamou de cells, do latim cella, que significa “pequeno quarto” ou “câmara”. (Figura 1)


Figura 1. Células subéricas e folhas de mimosa
(Fonte: Robert Hooke, Micrographia, 1665. Reprodução)

 

Hooke registrou essas observações em detalhes no livro Micrographia, uma obra que se tornaria um marco da história da ciência. Publicada com ilustrações minuciosas feitas a partir do microscópio, Micrographia não apenas introduziu o termo “célula”, como também despertou o interesse científico e público pelo mundo invisível.

É importante destacar que Hooke observava células mortas: apenas as paredes celulares da cortiça eram visíveis. Por isso, ele acreditava estar diante de cavidades vazias. Hoje sabemos que essa impressão era limitada pelas ferramentas da época. As células vivas são estruturas altamente dinâmicas, repletas de organelas e processos bioquímicos essenciais à vida.

 

Do detalhe microscópico à teoria celular

Ao longo dos séculos XVIII e XIX, os microscópios passaram por avanços técnicos decisivos. Durante quase 200 anos, o desenvolvimento do microscópio composto ficou estagnado devido a problemas ópticos, como a decomposição da luz branca. Esse obstáculo só foi superado com a introdução das lentes acromáticas, por volta de 1830. Mais tarde, em 1878, o físico alemão Ernst Abbe projetou um microscópio acromático moderno e um sistema de iluminação subpalco que revolucionou a observação biológica, permitindo imagens mais nítidas e detalhadas.

Esses avanços tornaram possível a formulação da Teoria Celular, um dos pilares da biologia moderna. Em 1838, o botânico Matthias Schleiden propôs que todos os vegetais eram formados por células. No ano seguinte, o fisiologista Theodor Schwann estendeu essa ideia aos animais, afirmando que a célula era a unidade básica estrutural e funcional de todos os seres vivos. (Figura 2)


Figura 2. Desenhos de células animais observadas ao microscópio por Theodor Schwann em 1830
(Fonte: Churchill College. Reprodução)

 

A teoria foi posteriormente complementada pelo patologista Rudolf Virchow, que cunhou a famosa frase “Omnis cellula ex cellula” — toda célula se origina de outra célula. Com isso, a biologia ganhou um princípio unificador capaz de explicar o crescimento, o desenvolvimento, a regeneração e as doenças.

Classificação, estrutura e o espírito científico da época

A descoberta da célula não ocorreu isoladamente. Ela dialogava com um movimento mais amplo de organização e classificação do mundo natural. Inspirados por abordagens sistemáticas como a de Isaac Newton, que descreveu o universo por meio de leis matemáticas em seu Principia (1687), naturalistas passaram a buscar padrões e estruturas comuns nos organismos vivos.

 

“Da curiosidade científica do século XVII à medicina personalizada, a descoberta da célula redefiniu a forma como entendemos a vida, a doença e a evolução.”

 

Desde Aristóteles, que já distinguia animais com base no modo de reprodução e no habitat, até pensadores como John Ray e Carolus Linnaeus, a biologia avançou ao usar a estrutura — e não apenas a aparência — como critério de classificação. Linnaeus, ao estabelecer a nomenclatura binomial e organizar espécies em gêneros, famílias e ordens, consolidou a taxonomia como disciplina científica. Esse olhar estrutural preparou o terreno para que a célula fosse reconhecida como um elemento comum a toda vida.

 

Impactos duradouros na ciência e na saúde

A descoberta da célula revolucionou profundamente a ciência. Ao demonstrar que todos os organismos — de plantas e animais a microrganismos — compartilham a mesma unidade básica, a Teoria Celular unificou a biologia. Mais do que isso, ela transformou a medicina.

O estudo das células (citologia) permitiu compreender doenças em nível microscópico, identificando alterações celulares associadas a infecções, inflamações e câncer. Técnicas como a cultura de células tornaram-se essenciais para o desenvolvimento de vacinas, testes de medicamentos e terapias inovadoras. Células como as HeLa, cultivadas fora do corpo humano, abriram caminho para avanços decisivos na biotecnologia e na medicina personalizada. (Figura 3)


Figura 3. A célula HeLa
(Fonte: Divulgação)

 

Além disso, o aperfeiçoamento da microscopia revelou estruturas internas como o núcleo e, mais tarde, o DNA, fortalecendo a compreensão da hereditariedade, da evolução e da ideia de ancestralidade comum entre os seres vivos.

 

Capa. Freepik. Reprodução.
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