De florestas e oceanos a recifes e paisagens urbanas, artistas e cientistas escutam o planeta e convertem suas vozes em criação musical, consciência ambiental e ação climática
Ouvir a natureza deixou de ser apenas um gesto contemplativo para se tornar uma prática artística, científica e política. Em diferentes partes do mundo, artistas contemporâneos vêm transformando sons ambientais — de florestas, oceanos, geleiras, recifes e cidades — em composições musicais que ampliam nossa percepção sobre o planeta e seus limites. A partir de gravações de campo, bioacústica, biossonificação e tecnologias digitais, esses projetos constroem paisagens sonoras imersivas que conectam arte, ciência e conservação, revelando que a crise climática também pode ser escutada.
No ambiente marinho, essa escuta tem sido fundamental para a ciência e inspiradora para a arte. Pesquisas em bioacústica mostram que o oceano é atravessado por uma complexa sinfonia natural: baleias, golfinhos, peixes, crustáceos e até organismos microscópicos produzem sons essenciais para comunicação, reprodução e organização dos ecossistemas. Estudos coordenados por pesquisadores como João Lucas Leão Feitosa, da Universidade Federal do Pernambuco (UFPE), revelam que recifes de corais saudáveis apresentam alta diversidade sonora, enquanto áreas degradadas tornam-se silenciosas — um sinal claro de colapso ecológico. O som, nesse contexto, não apenas revela a saúde dos ambientes marinhos, mas também orienta estratégias de conservação, monitoramento e restauração.
“Ao transformar sons da natureza em música, artistas e cientistas revelam que a crise climática também pode ser escutada.”
Essas descobertas científicas vêm ecoando no campo artístico. Gravações de golfinhos, baleias e paisagens subaquáticas têm inspirado exposições, álbuns e performances que emocionam e alertam para a crise dos oceanos. Projetos como a Voz dos Oceanos, liderado pela família Schurmann, transformam sons captados ao longo de expedições marítimas em narrativas sensoriais e mobilizadoras. Trilhas sonoras compostas a partir de registros da costa brasileira e de regiões oceânicas profundas ganharam forma em exposições imersivas, como a Exposição Voz dos Oceanos, apresentada em São Paulo e em Belém durante a COP30, aproximando o público urbano da vida marinha e de seus alertas silenciosos. (Figura 1)

Figura 1. Projeto Voz dos Oceanos capta sons de expedições marítimas
(Foto: Freepik. Reprodução)
Som e ciência
Essa aproximação entre arte e ciência também se manifesta em iniciativas internacionais como o projeto Polar Sounds, idealizado pelo artista e pesquisador galês Geraint Rhys Whittaker. A partir de dados acústicos coletados por cientistas nos mares polares, artistas de diferentes países foram convidados a reinterpretar esses sons como música e arte sonora. O resultado revelou que, quando dados científicos ganham forma artística, deixam de ser apenas informação técnica e passam a construir narrativas capazes de gerar empatia, emoção e engajamento público em defesa de ecossistemas distantes e pouco acessíveis.
Na floresta amazônica, a escuta também se converte em ação concreta. Projetos como Nature x LABVERDE e Sounds Right reconhecem juridicamente a natureza como artista, creditando sons de rios, árvores, insetos, pássaros e tempestades como autores de obras musicais nas plataformas de streaming. Cada reprodução gera royalties destinados diretamente a projetos de conservação liderados por comunidades indígenas e ribeirinhas, inaugurando uma nova economia cultural baseada na justiça climática. Mais do que registros sonoros, essas iniciativas propõem uma mudança radical de perspectiva: a floresta deixa de ser apenas inspiração e passa a ser sujeito de direitos.
Brasilidade
Essa lógica de dar voz literal à natureza também orienta projetos brasileiros como o Pantanal Jam, que transforma a paisagem sonora da maior planície alagável do planeta em jazz contemporâneo. Após um ano de pesquisa e captação de sons no Pantanal sul-mato-grossense, músicos reinterpretaram cantos de aves, vocalizações de animais e o fluxo das águas como motivos musicais, criando composições baseadas no diálogo e na improvisação — princípios que refletem o próprio funcionamento dos ecossistemas. A mensagem é direta: escutar o Pantanal é um convite à preservação de sua biodiversidade e cultura. (Figura 2)

Figura 2. Pantanal Jam
(Foto: Divulgação)
Em outra chave, iniciativas como a Identidade Sonora da Natura e o trabalho do grupo amazonense Gaponga mostram como a bioacústica e os sons da floresta podem moldar não apenas obras artísticas, mas também linguagens comunicacionais. Ao converter pulsos elétricos de árvores amazônicas em melodia, ou ao criar instrumentos musicais a partir de sementes, folhas e cuias, esses projetos traduzem a pulsação da floresta em experiências sensoriais que conectam bem-estar, regeneração e pertencimento. A música surge, assim, como meio de reconexão entre humanos e o mundo natural.
“Quando a natureza passa a ser reconhecida como artista, a escuta se transforma em ação e conservação.”
No fundo, todos esses projetos partem da mesma constatação: o planeta fala o tempo todo, mas nem sempre estamos dispostos a escutar. Ao transformar sons da natureza em música, artistas e cientistas não apenas revelam a riqueza acústica dos ecossistemas, como também propõem uma ética da escuta — um gesto de atenção que pode se converter em cuidado.
Capa. Reprodução


