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Instrumentos que contam a história do Brasil

Como sons tradicionais revelam territórios, saberes e modos de existir no país

 

Os instrumentos que moldaram a trajetória musical do Brasil nasceram longe das salas acústicas e dos laboratórios. Berimbaus, rabecas e violas surgiram de saberes transmitidos oralmente, em comunidades que aprenderam a transformar o que a terra oferece em forma, timbre e memória.

Cada madeira, cabaça e couro escolhido carrega o retrato de um território — e, por isso, mudanças ambientais, escassez de espécies e alterações no clima podem modificar a própria paisagem sonora que essas culturas constroem há séculos. “A gente pensa em instrumento musical, você pensa no som dele, é claro, mas, na verdade, o instrumento musical é muito mais do que o som que ele tira”, explica Juarez Bergmann, doutor em Design pela Universidade Federal do Paraná (UFPR) e professor do Setor de Educação Profissional e Tecnológica da UFPR. “Então, estudar esses instrumentos proporciona um campo riquíssimo de reflexão pessoal e cultural”.

Esses instrumentos também são marcadores de ancestralidade e resistência. Suas sonoridades atravessam rituais, festas populares e práticas de afirmação identitária em regiões que historicamente tiveram menos acesso aos espaços formais de reconhecimento cultural. Em muitos desses contextos, tocar um instrumento não é apenas produzir música: é reafirmar pertencimento, preservar um modo de viver e atualizar memórias que foram mantidas vivas apesar de desigualdades profundas. “Nós temos isso para preservar, para valorizar, para mostrar que somos um país grande, com muita diversidade cultural e que temos uma raiz muito forte”, defende Adriana Ballesté, coordenadora do Museu Virtual de Instrumentos Musicais (MVIM).

Quando físicos, músicos e artesãos se encontram para discutir a construção desses objetos, nasce um diálogo fértil entre ciência e tradição. A precisão das medições e modelos acústicos se cruza com a sensibilidade acumulada por gerações de construtores, revelando maneiras complementares de compreender o som. Esse encontro amplia as possibilidades de pesquisa, criação e preservação. Visto como artefato cultural, e não apenas ferramenta sonora, cada instrumento brasileiro expõe as misturas, tensões e inventividades que formam o país. “Eu acho que isso tudo é um grande e lindo guarda-chuva que temos que aceitar que veio de cá ou de lá, mas é quase que um movimento antropofágico mesmo”, pontua Hugo Pilger, professor da classe de violoncelo da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UNIRIO) e membro do Trio Porto Alegre.

Assista ao vídeo completo:

Ciência & Cultura © 2022 by SBPC is licensed under CC BY-SA 4.0  
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