Ritmos, memórias e pertencimentos revelam como sons ajudam a definir quem somos — individual e coletivamente.
Muito além do entretenimento, a música ocupa um papel central na construção da identidade cultural. Ela funciona como um espelho que reflete as raízes, os valores e a história de diferentes povos, além de atuar como um poderoso mecanismo de coesão social. Ao mesmo tempo em que expressa experiências individuais, a música preserva memórias coletivas e ajuda a construir sentidos compartilhados de pertencimento. Em diferentes contextos sociais, ela revela modos de vida, tensões e afetos que atravessam comunidades e gerações.
Pesquisas nas áreas de sociologia, antropologia e estudos culturais mostram que a escuta e a prática musical contribuem para moldar identidades relacionadas a gênero, raça, território, juventudes e religiosidades. Nesse processo, a música atua como um marcador social que articula memória, política e formas de existência. Ao circular entre diferentes contextos e grupos, os sons produzem encontros e misturas culturais que também geram novas identidades. “Essas trocas musicais constroem produtos híbridos que vão gerar também identidades híbridas”, explica Ana Guiomar, professora da Escola de Música e Artes Cênicas da Universidade Federal de Goiás (UFG).
A ideia de que a música constrói identidades significa reconhecer que ela não apenas reflete experiências sociais, mas participa ativamente da sua formação. Canções e ritmos ajudam a definir vínculos afetivos, criar referências simbólicas e estabelecer fronteiras culturais entre grupos. Parte dessa força vem da diversidade de linguagens musicais e da amplitude de possibilidades expressivas que a música oferece. “A música oferece uma variedade imensa de possibilidades expressivas de gêneros, de ritmos, de épocas e instrumentos e maneiras de tocar esses instrumentos”, afirma Leonardo Fuks, professor de Acústica Musical da Escola de Música da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). “Essa capacidade de inclusão que a música proporciona é um grande elemento para esse carisma que a música tem”, diz.
No Brasil, a associação entre gêneros musicais, corpos, raças e territórios também revela desigualdades históricas. Ao longo do tempo, certos estilos foram associados a grupos sociais específicos e, muitas vezes, estigmatizados por sua origem popular ou periférica. Ainda assim, artistas e comunidades têm transformado essas marcas em potência cultural. Ritmos nascidos nas periferias urbanas, por exemplo, frequentemente se tornam ferramentas de afirmação identitária, orgulho coletivo e reconhecimento público.
Quando determinados sons desaparecem do espaço público, parte dessas experiências também se perde. A música revela dimensões da sociedade que frequentemente escapam aos discursos institucionais, trazendo à tona conflitos, resistências e modos de vida que atravessam o cotidiano. Para o pesquisador Paíque Duques Santarém, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e membro do Núcleo de Brasília do INCT Observatório das Metrópoles, essa capacidade de conectar diferenças é uma das forças mais marcantes da música: “A música é um universo muito grande e a identidade é um universo muito grande. Assim, a música tem esse potencial de fortalecer as nossas conexões, mesmo que sejamos pessoas aparentemente muito distintas.”
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