Muito antes de serem reconhecidos como ferramentas pedagógicas, brinquedos populares já ensinavam ciência de forma espontânea. Pião, ioiô, pipa e tantos outros objetos presentes na infância carregam conceitos ligados ao movimento, equilíbrio, força, energia e aerodinâmica. Em salas de aula, esses brinquedos vêm sendo utilizados para aproximar o conhecimento científico do cotidiano das crianças, despertando curiosidade, criatividade e vontade de aprender.
Para Paulo Henrique Dias Menezes, professor da Faculdade de Educação e pesquisador do Núcleo de Educação em Ciência, Matemática e Tecnologia da Universidade Federal de Juiz de Fora, os brinquedos carregam muito mais do que entretenimento. “Falar de brinquedo é falar um pouco da nossa vida, das nossas infâncias, da criança que fomos, das crianças que acompanhamos ao longo da vida”, afirma. Segundo ele, o grande potencial desses objetos está justamente na capacidade de envolver emocionalmente as crianças e despertar interesse genuíno pelo conhecimento.
Ao mesmo tempo, o pesquisador alerta para o desafio de transformar a brincadeira em atividade educativa sem retirar dela o encanto. “Quando eu tento didatizar demais esse jogo, pode acontecer de ele perder encanto, deixar de ser brincadeira e passar a ser apenas ferramenta”, explica. O equilíbrio, segundo Menezes, está em criar experiências em que a diversão continue sendo parte central do processo de aprendizagem. Nesse contexto, brincar não é apenas passatempo: é também uma maneira de experimentar hipóteses, compreender regras, desenvolver cooperação e construir novas formas de pensar.
Além da dimensão lúdica, os brinquedos populares também carregam aspectos culturais e sociais importantes. Produzidos muitas vezes de forma artesanal, eles estimulam a imaginação infantil e ajudam as crianças a interpretar o mundo ao redor. Ao manipular objetos, criar estratégias em jogos ou construir seus próprios brinquedos, elas desenvolvem habilidades cognitivas e sociais de maneira natural. A brincadeira se torna, assim, uma ponte entre o desejo de brincar e a vontade de descobrir.
Nas atividades desenvolvidas com seus alunos, Paulo Menezes propõe justamente essa aproximação entre ciência e cotidiano. “Um peão, uma pipa, podem se tornar brinquedos científicos dependendo da maneira como eu vou explorar esse brinquedo e a brincadeira que ele proporciona”, diz. O professor também incentiva a construção de brinquedos simples e acessíveis, valorizando não apenas o aprendizado individual, mas também a troca entre as crianças. “Uma coisa que eu prezo muito é o fato de a criança não só construir o seu brinquedo, mas ela poder partilhar isso também”, conclui.
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