Patrimônio cultural não é apenas aquilo que uma sociedade escolhe preservar. É também resultado de processos sociais que atribuem valor a determinados objetos, práticas e manifestações e, por meio deles, constroem narrativas sobre história, identidade e pertencimento. Essa compreensão ampliou o campo de estudos sobre patrimônio no Brasil, inicialmente muito associado à preservação arquitetônica, incorporando também dimensões sociais, culturais e simbólicas.
A trajetória de pesquisa da socióloga Mariza Veloso acompanha essa transformação. Em sua tese, a pesquisadora investigou a formação do campo do patrimônio no Brasil e sua relação com o modernismo e a valorização do período colonial e do barroco. Para ela, o patrimônio deve ser entendido como um valor capaz de mobilizar outros valores sociais. “E eu acho que introduzi, depois contribuí, porque depois muitos outros intelectuais, muitos outros sociólogos e antropólogos também fizeram tese nesse sentido, e mostrar como o patrimônio era um valor que agenciava outros valores, como a de nação, a de história, a de pertencimento, a de memória. Então, isso me deu também uma abertura grande e isso incentivou muitas outras pesquisas a ir nessa direção”, explica a professora do Instituto Rio Branco e do Departamento de Sociologia da Universidade de Brasília (UnB).
Essa perspectiva permite compreender o patrimônio como parte ativa da vida social: ao definir o que deve ser reconhecido e preservado, também se constroem formas de narrar o passado e de estabelecer vínculos coletivos no presente. “Eu vejo o patrimônio como um discurso social, como um discurso social que propõe valores, que propõe ações sociais, no caso, ações culturais, que não só dizem respeito à questão do patrimônio em si, dos objetos que estão sendo nomeados como patrimônio, mas como também em relação à ideia de pertencimento social”, conclui Mariza Veloso.
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