Liberdade para criar, investigar e experimentar novas linguagens e manifestações culturais
A música instrumental no Brasil ganha força e se reinventa a partir do trabalho de formação de profissionais e de pesquisas sobre técnicas e linguagens musicais nas diversas orquestras universitárias existentes no País. Nesses núcleos artísticos, em que são treinados e formados novos profissionais de orquestra, solistas e regentes, o ambiente é propício à pesquisa e à criação de oportunidades tanto para novos compositores como para o resgate dos talentos que se encontram esquecidos.
Em cada universidade, há um modelo de trabalho diferente. Na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), por exemplo, a orquestra integra projetos de extensão universitária e é integrada aos institutos de arte. Colabora com os públicos interno e externo. Tem base na universidade e os seus funcionários são profissionais.
A maestrina Cinthia Alireti, regente titular e codiretora artística da Orquestra Sinfônica da Unicamp (OSU), explica que a orquestra tem vários projetos que buscam a interseção entre ensaio, pesquisa científica e formação estudantil. “Temos laboratórios com sessões de leitura: são projetos acessados por acadêmicos de todo o Brasil. A pessoa propõe uma peça, uma composição para orquestra, que passará por um processo de seleção. Esse espaço foi criado para experimentar e apoiar a escrita para novas linguagens. Eles podem gravar. É um formato para música contemporânea, experimental e que precisa amadurecer. Outro projeto que temos é o de fazer ópera com alunos dos departamentos. Nossos cantores solistas são tirados desse projeto”, informa. (Figura 1)

Figura 1. A Orquestra Sinfônica da Unicamp (OSU)
(Foto: Marilia Vasconcellos/ Unicamp. Reprodução)
Ela destaca também o projeto que foi desenvolvido pelo professor Jônatas Manzoli (professor do Núcleo Interdisciplinar de Comunicação Sonora da Universidade de Campinas – NICS) e Micael Antunes (pesquisador do NICS). Através da tecnologia, eles integraram o movimento de performances de vídeo e improvisações humano-computador, permitindo interações entre som, imagem e movimento. “É bom lembrar que a experiência musical do estudo acadêmico na formação dos músicos necessariamente não tem música contemporânea, já que não faz parte do dia a dia do curso. Assim, o fato de incluirmos a música contemporânea em nossas temporadas acaba dando um equilíbrio que fomenta a cognição musical“, acrescenta.
Profissionalismo e aprendizagem
No Rio de Janeiro, a orquestra sinfônica da Universidade Federal do Rio de Janeiro (OSUFRJ) tem como principais finalidades o atendimento aos alunos de Graduação e Pós-Graduação em instrumentos, composição e regência e a realização da temporada de concertos. De acordo com André Cardoso, diretor da orquestra, a sua primeira finalidade se dá através da disciplina Prática de Orquestra, inscrevendo-se aí nas atividades universitárias voltadas para o ensino. A segunda constitui-se no ciclo anual de concertos realizados na Escola de Música e em outros espaços culturais da cidade, que se caracteriza como uma atividade de Extensão. A encomenda e estreia de novas obras, a abordagem da música contemporânea e do repertório do passado musical brasileiro, inserem a OSUFRJ no campo da Pesquisa em música. (Figura 2)

Figura 2. Orquestra Sinfônica da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ)
(Foto: UFRJ. Divulgação)
Ele ressalta os tipos diferentes de orquestras sinfônicas que existem no País e cita que a Orquestra Sinfônica Nacional da Universidade Federal Fluminense e a Orquestra Sinfônica da USP são profissionais. Não têm, portanto, funções pedagógicas. A Orquestra Acadêmica da Unesp e a Orquestra da UniRio são compostas exclusivamente por alunos. A Filarmônica UFRN e a Filarmônica da UFRGS são projetos de extensão, com bolsas para alunos e extensionistas. A Orquestra Sinfônica da UFRJ é uma orquestra híbrida. Tem 47 músicos profissionais e cerca de 90 alunos que atuam juntos.
André Cardoso afirma que na área da educação, a OSUFRJ participa do Sistema Nacional das Orquestras Sociais do Brasil (Sinos), que é um projeto desenvolvido em parceria entre a Funarte e a Universidade Federal do Rio de Janeiro através de sua Escola de Música. “Esse projeto busca atender e dar suporte aos projetos sociais que se dedicam ao ensino coletivo de instrumentos e à prática de orquestra. O Sinos engloba diversas ações, mas a orquestra participa especificamente do Repertório Sinos e dos Concertos Sinos. A série Concertos Sinos apresenta ao público as obras criadas e editadas para esse repertório, disponibilizando obras orquestrais adequadas aos diferentes estágios de desenvolvimento musical dos alunos. A orquestra faz a primeira audição e grava as obras encomendadas a compositores de várias localidades do país”, salienta.
“Assim, se de um lado, enfrentamos a falta de recursos, de outro temos a vantagens sermos uma orquestra na Universidade, pois é um ambiente propício para a divulgação e formação de cultura e também onde se faz muita música inédita.”
Em sua opinião, as orquestras universitárias ampliam o acesso à música e transformam a vida cultural dos campi. No caso da Sinfônica da UFRJ, a maior parte dos seus concertos são gratuitos. A orquestra atua em diferentes salas de concertos, igrejas e mesmo em outras cidades. Participa de eventos como o Festival Villa-Lobos, a Série Brasiliana da Academia Brasileira de Música e a Bienal de Música Brasileira Contemporânea, da Funarte. “Ela se dedica bastante ao repertório contemporâneo, especialmente o brasileiro, tendo já realizado mais de 200 estreias de obras. Realiza gravações em áudio e vídeo, está presente nas redes sociais e nas plataformas digitais. São formas de ampliar o acesso”, afirma.
Incentivos e políticas públicas
Com a mesma proposta de dar espaço à pesquisa e aos novos talentos, a orquestra sinfônica da Universidade Federal de Pernambuco (OSUFPE) vem lutando desde a sua criação, em 2015, com falta de recursos. De acordo com Sergio Dias, regente fundador emérito da orquestra, ele chegou à universidade em 2009, vindo do Espírito Santo e encontrou apenas grupos vocais. Assim, trabalhou para formar inicialmente uma orquestra de Câmara, só de cordas, com 9 pessoas. Em 2015, conseguiu formar uma pequena Orquestra Sinfônica com sopro, percussão e cordas. “Tínhamos conseguido bolsas de estudo para os integrantes da orquestra que foram extintas em 2018. Decidimos então encerrar as atividades da orquestra naquele ano. Em 2019, um grupo de alunos nos procurou para retomarmos as atividades, o que aconteceu em 2020, mas tivemos que parar em função da pandemia. Só retornamos em 2022 e seguimos até agora sem bolsas de estudo. No fim de 2023, decidi me afastar e a regência da orquestra passou para os professores Maria Ida Barroso – chefe do Departamento de Música – e Helder Passinho. Eu fiquei como regente fundador emérito”, relembra. (Figura 3)

Figura 3. Orquestra sinfônica da Universidade Federal de Pernambuco (OSUFPE)
(Foto: OSUFPE. Reprodução)
Sergio Dias relata que, mesmo sem recursos, o trabalho continua sendo feito na formação de alunos não só do Departamento de Música, mas de outros cursos como os de engenharia e comunicação. E mesmo de outras instituições como o Conservatório Musical de Pernambuco e alunos de projetos sociais como os da Orquestra Criança Cidadã. Segundo ele, a orquestra é um campo onde os alunos podem treinar, se exercitando para no futuro se tornarem músicos de orquestra, já que 95% dos alunos de cursos de música vão atuar em orquestra quando se formarem.
“O trabalho na OSUFPE é transdisciplinar. Engloba pesquisas de alunos que preparam suporte digital para o material de divulgação dos trabalhos; proporciona experiência com novas linguagens de música, como linguagem eletrônica e contemporânea em geral. Também prepara novas plateias formando jovens e apurando o gosto musical da plateia jovem. Traz, assim, público para o repertório sinfônico. Para isso, toca muita música brasileira, especialmente músicas inéditas compostas para orquestras, incentivando jovens compositores a comporem para orquestra”, ressalta.
“O presencial é o grande diferencial da atividade orquestral: a música feita ao vivo, a execução única do momento do concerto, a emoção do contato com o público, o calor do aplauso.”
O regente explica que a OSUFPE também mantém contato com tradições antigas e a cultura popular. No concerto que ocorreu em julho no Teatro de Santa Isabel, foi incluído um concerto para trompete e orquestra composto especialmente para orquestra pelo Maestro Duda, conhecido por seu trabalho na área do frevo.
Segundo Dias, as universidades têm orgulho de suas Orquestras Sinfônicas, pois além da divulgação da música elas revelam a agitação cultural da universidade. Elas mostram o serviço da Universidade na comunidade. Na sua opinião, outra inovação importante da OSUFPE é a promoção da diversidade, já que é formada por alunos cotistas, negros, portadores de deficiência e oriundos de projetos sociais. E os concertos são sempre acompanhados por libras e com projeções visuais dos textos para os deficientes auditivos. “Assim, se de um lado, enfrentamos a falta de recursos, de outro temos a vantagens sermos uma orquestra na Universidade, pois é um ambiente propício para a divulgação e formação de cultura e também onde se faz muita música inédita”, observa.
Já a OSUSP, por ser uma orquestra profissional, tem como prioridade a divulgação do repertório de música orquestral e ocasionalmente faz programações em conjunto com a Orquestra de Câmara da Escola de Comunicações e Artes (OCAM), que é uma orquestra de estudantes.
Segundo Mayra Moraes, vice-diretora e violinista OSUSP, os alunos da OCAM se aproximam da OSUSP para complementação de seus trabalhos sendo orientados pelos professores do Departamento de Música. Um exemplo desse trabalho é o que foi desenvolvido através da classe do professor Fábio Cury onde foi feita uma análise da quantidade de maestras, compositoras e obras brasileiras interpretadas pela OSUSP ao longo dos seus anos de atividade. “A diretora atual da OSUSP, professora doutora Cássia C. Bomfim, tem promovido a intersecção entre música e tecnologia – mas este trabalho é realizado através de suas atividades pedagógicas. A OSUSP aproximou-se da tecnologia na época da pandemia, quando a instituição orquestral, pelo mundo todo, precisou se reinventar – fizemos diversas atividades online – mas com o fim do período crítico da pandemia retomamos o presencial que é o grande diferencial da atividade orquestral: a música feita ao vivo, a execução única do momento do concerto, a emoção do contato com o público, o calor do aplauso”, explica.
Mayra Moraes informa que OSUSP tem duas séries de atividades: o Memórias Musicais dedicado primordialmente para o público 60+ em parceria com o projeto USP 60+ e concertos didáticos para crianças e jovens de escolas públicas como público básico, mas também não exclusivamente. Com essas atividades é possível fazer uma maior aproximação de um público diverso, da USP e de fora e que, segundo ela, muitas vezes assistem a uma orquestra pela primeira vez.
“Qualquer que seja o modelo da orquestra acadêmica, uma de suas principais características é o fato de ter uma mente arejada, com liberdade para investigar e experimentar linguagens novas e manifestações culturais.”
Ela ressalta ainda que as atividades da OSUSP são sempre gratuitas. Muitas vezes o seu trabalho é levado a outros teatros de São Paulo, como a Sala São Paulo, e aos diversos campi da USP pelo interior e outras unidades em São Paulo, não ficando restrita a atividades no Campus Butantã onde fica sua sala de ensaios e concertos. “Por estar dentro da Universidade, a OSUSP pode ousar na escolha do repertório. Importante conquista das mais recentes temporadas, foi a criação do ciclo de concertos Torre do Relógio, que propõe uma reflexão sobre a conexão entre música e ciência. Inspirado no monumento de mesmo nome localizado no centro da Cidade Universitária, a Torre do Relógio é composta de duas placas verticais em concreto armado em que estão esculpidos painéis que representam as áreas de conhecimentos das Ciências e das Artes”, afirma.
Ela enfatiza que a OSUSP está em constante processo de atualização, com o propósito de ir além do papel de espaço de reprodução musical, assumindo também um lugar ativo na construção da cultura, um trabalho que começou em 1975, quando foi fundada pelo compositor Camargo Guarnieri.
E, como observa a maestrina Cinthia Alireti, da Orquestra Sinfônica da Unicamp (OSU), qualquer que seja o modelo da orquestra acadêmica, uma de suas principais características é o fato de ter uma mente arejada, com liberdade para investigar e experimentar linguagens novas e manifestações culturais. Além de apoiar a formação de jovens músicos, funciona como um laboratório.
Capa. Orquestra Filarmônica da UFRN (Fil)
(Foto: Cícero Oliveira – Agecom/UFRN. Reprodução)


