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Carnaval, ritmo e ancestralidade

A percussão como fio condutor entre ancestralidade, resistência e organização coletiva no Carnaval brasileiro.

 

O Carnaval brasileiro, frequentemente visto apenas como espetáculo e celebração, revela-se muito mais complexo quando observamos suas camadas culturais e políticas. A festa transformou-se no Brasil em um território de disputa simbólica onde a memória afrodescendente se materializa em movimento, som e corpo. Nas ruas e avenidas, o ritmo organiza a multidão, funda identidades e cria laços de pertencimento que atravessam séculos. É por meio dos tambores, das batidas e cadências que práticas ancestrais seguem vivas, gerando conhecimento social e dando forma a modos de existir e resistir. E é esse o tema do novo episódio do Ciência & Cultura Cast.

Esse caráter de resistência aparece de maneira clara na potência da percussão. Os toques que ecoam no Carnaval — do samba-reggae à cadência das baterias — dialogam diretamente com tradições dos terreiros de candomblé e umbanda, evocando os orixás e afirmando a força das culturas Iorubá, Ewe e Fon. Escolas de samba, blocos afro e cordões tornam-se guardiões dessa herança, conectando atabaques, surdos, repiniques, agogôs e cuícas a práticas que atravessam oceanos e séculos. Como afirma Marilda Santana, professora titular do Instituto de Humanidades, Artes e Ciências da Universidade Federal da Bahia e criadora, gestora e curadora do projeto Troféu Caymmi, “a manutenção desse batuque durante justamente o período do carnaval seja carioca, seja baiano, seja maranhense, seja pernambucano, é um ato de resistência. E é um ato de resistência que passa justamente essa tecnologia de como você acessar esse lugar, de como você construir esses instrumentos, esses objetos que representam a contravenção, além de um ato de resistência e de transformação cultural e de perpetuação dessa tradição”.

Blocos afro como Ilê Aiyê e Olodum, na Bahia, exemplificam essa permanência ao transformar suas batidas em veículos de afirmação identitária, educação política e reapropriação cultural. Desde o início do século XX, grupos como cordões, blocos de enredo e até maltas de capoeira enfrentaram repressões e preconceitos para manter vivo o batuque que hoje pulsa no coração do Carnaval. Esses coletivos consolidaram o Carnaval como um “continuum de cultura”, onde as lutas históricas da população negra se renovam e se tornam visíveis, desafiando apagamentos e fortalecendo a presença da cultura de terreiro nas celebrações populares.

A festa continua sendo um dos espaços mais significativos de expressão da cultura negra no Brasil, como reforça Marilda Santana ao lembrar que “se tirar a música do carnaval, se tirar o povo preto do carnaval, não sobra absolutamente nada. Não sobra nada, porque, historicamente, o carnaval é um dos poucos espaços onde a população negra podia expressar sua cultura”.

Ouça ao episódio completo:

 

Ciência & Cultura © 2022 by SBPC is licensed under CC BY-SA 4.0  
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